
Nada há pior que a traição. Traição foi o pecado de Judas. Vejamos a estória de hoje:
Certa garça que morava à beira de uma lagoa tornou-se muito preguiçosa e, como já não se sentisse com ânimo para perseguir os peixes, inventou um artifício para agarrá-los sem muito esforço.
Disse-lhes:
- Triste notícia, meus amigos! Uma enorme desgraça vai cair sobre vós. Os homens, segundo ouvi dizer, vão esvaziar esta rica lagoa para apanhar os peixes, frigi-los e comê-los. Eu sei que entre as montanhas há um lago imenso, de águas puras e cristalinas. Com muito gosto vos levaria para lá, mas sinto-me tão velha e fraca que dificilmente poderia fazer qualquer coisa em vosso auxílio.
Os peixes pediram, por favor, à garça, que os não abandonasse naquela triste dependura.
- Está bem - retorquiu a garça. - Trabalharei por vós. Como não posso, entretanto, levar a todos juntos, vou transportar-vos carregando um de cada vez.
Ficaram muito contentes os peixes, e todos eles empenharam-se em partir levados pela ave salvadora.
- Leva-me a mim! Leva-me a mim! - gritavam.
E a garça começou a pôr em execução o seu plano. Apanhou um peixe com o bico, levou-o para o campo vizinho e comeu-o. A mesma coisa fez, a seguir, com muitos outros que a ela se entregaram confiantes.
Mas na dita lagoa morava, também, um velho caranguejo astucioso e desconfiado. Este não acreditou nas boas intenções da pernalta e resolveu apurar a verdade.

- Tenho receio de morrer aqui, minha garçazinha! - lamentou com voz triste. - Queres carregar-me, também, para o grande lago das montanhas?
A garça apanhou o caranguejo e levou-o. Ao chegar ao campo desceu; e ia preparar-se para devorar o ladino crustáceo, quando este, ao ver as espiabas secas dos peixes que o haviam precedido, apertou entre as unhas fortíssimas o pescoço da garça e a estrangulou. Voltou depois para a lagoa e contou o caso aos peixes que aguardavam ainda a pérfida traidora.
Aquele que procura agir com maldade e má-fé, cedo ou tarde receberá o justo castigo de suas indignidades.
(“Lendas do Céu e da Terra” – Malba Tahan)
